O Circo

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A lona do Circo Tropical era furada, como se tivessem dado tiros de espingarda e espalhado muito os chumbos. Os adultos, em cegueira, julgavam. Diziam ser o mais vagabundo dos circos.

“Na certa, chove mais dentro que fora.”

Os adultos diminuíam um circo que só crescia em mim.

Compreendi a pobreza do circo: a lona furada, as cores gastas; queimadas de sol. O carro de som remendado com cimento. Os palhaços que se maquiavam sem espelhos, a arquibancada de tábuas finas, o ingresso de papel ruim; cortado à tesoura e carimbo igual da escola.

Economizavam no elenco: o atirador de facas, era também o malabarista, trapezista e cuspidor de fogo. Depois dos seus números ainda vendia pipocas e amendoins. Mudava de roupa e de cara. Parecia envelhecer e remoçar.

Tinha mil nomes:

“Com vocês, Pep Gonzalo, o homem que nunca errou uma facada na vida…”

“E agora, Leo Galeon, o cupidor de fogo. O homem dragão…”

“Direto da Espanha, Cid Giron. O homem da corda bamba. Uma queda pode levá-lo a morte…”

Que nome teria o atirador facas?

Os palhaços eram os mais esperados.

Com vocês, os palhaços mais destrambelhados do mundo, vem aí, Cufino e Cugordo.

Contavam piadas, peidavam alto e faziam malabares com bolas e tochas pegando fogo. Casavam o cachorro com a galinha, ensinavam a filar na escola. As professoras sorriam de verdade. Depois, na sala de aula, iriam repreender. Agora só riam, mostrando as dentaduras amarelas.

Os palhaços chamavam dançarinas seminuas, que nos tiravam o fôlego. As meninas ficavam vermelhas e tapavam a cara. Os meninos arregalavam os olhos.

Os palhaços tiravam liberdades com as dançarinas seminuas. Levavam tapas e pontapés. As risadas estremeciam a lona furada.

“Não digam em casa que as dançarinas rebolam quase nuas. Voltem amanhã. Elas vão tirar tudinho.”

A gente obedecia e voltava no dia seguinte!

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A orelha do Rinoceronte

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Livro vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura

“Rinoceronte dromedário é obra que retorna às origens da linguagem. Helder parece ter voltado ao Éden e batizado as coisas que careciam de nomes. Um batismo “lesmento” e flexível, que vai se bulindo até virar Poesia. É forte no livro esse “primeiro olhar para as coisas”. O olhar de espanto e encantamento que tem a criança. Quem, senão uma criança ou um poeta, seria capaz dessa proeza: “Casca de ferida / pegou nojo do doente / despregou-se / e foi ter amizade com as baratas”.

Paul Celan escreveu certa vez que a sua força criadora vinha da infância. E se olharmos bem para o Rinoceronte dromedário é justamente isso que veremos. Aqui, a infância nos é trazida como aquele presente que perdemos, não se sabe onde, nem quando. E a gente, de cara, reconhece o presente, não como coisa, mas como amigo de velhas datas. O livro nos faz crer que não ser mais criança é perder muita coisa: “O poder da infância / era que pra morrer / bastava apenas fechar os olhos / para ressuscitar / somente abri-los”.

Escrever poesia em Pernambuco não é nada fácil. O Estado sempre brindou o Brasil com grandes nomes: Manuel Bandeira, Joaquim Cardozo, João Cabral e Alberto da Cunha Melo. Há sempre uma cobrança de quem será o “novo grande nome da vez”. Helder está entre os melhores poetas pernambucanos de sua Geração. E, no futuro, estará entre os grandes nomes aqui citados. Que venham os anos, os livros e a confirmação na aposta.”

(Na orelha do livro)